Ouvir de modo inteligente

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“Quanto das dificuldades do paciente se devem apenas ao fato de não terem sido ouvidos de modo inteligente?”(Winnicott, 1961)

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“Ouvir de modo inteligente…”

A frase ficou ressoando em mim…

Winnicott é mesmo danado de lançar frases assim, aparamente simples, que se desdobram em reflexões sem fim.

À primeira vista o adjetivo inteligente indica a escuta perspicaz e afiada, aquela que aponta o que percebe, pontua e intervém; aquela que produz interpretações; aquela que, sustentada numa teoria do amadurecimento, compreende a falha e a necessidade.

(Não há dúvida: é mesmo necessário uma boa dose de inteligência que permita, aos analistas, tecer conexões e nexos entre passado e presente, lançando luz em pontos obscuros.)

No entanto, como psicanalistas que somos, sabemos que as palavras não revelam apenas o que dizem. É preciso ir além do óbvio e ouvir o há por trás da tal “inteligência”!

A esperteza, a inteligência racional sem a integração com a experiência, sem a conexão com os sentidos e sentimentos, sem o contato íntimo com os afetos, se torna asséptica, fria e pragmática.

Não é dessa inteligência que nossos pacientes precisam. Não é dessa inteligência que precisamos quando somos nós que estamos dependentes e vulneráveis!

Com isso, ouvir de modo inteligente revela não apenas uma teoria de base que sustenta nossa prática mas talvez (e especialmente!) uma escuta humana que privilegie a parcimônia, o famoso “quão pouco precisa ser feito” de Winnicott. A escuta que não se desgasta em elocubrações rebuscadas e não se antecipa oferecendo caminhos ou sugestões.

A escuta inteligente não se deixa capturar pela “falação” e se esforça em se conectar com o que é mais verdadeiro, evitando as armadilhas da intelectualização, da fuga para a sanidade, da lucidez como aprisionamento.

É verdade que nem sempre alcançamos essa qualidade de escuta, mas seguimos tentando!

“Ouvir do modo inteligente” torna-se, então quase um mantra, eterna companhia do analista praticante, apontando, insistentemente, para o horizonte que mantemos sempre em vista!

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